24.3.11

todos os dias que você escolhe ignorar

os beijos, quando escapam,
cortam meus lábios
sei que não posso impedir-te de ir
mas o que haverá de melhor longe de nós dois?

a tua ausência resseca a minha alma,
inverte os cantos da minha cama.
me acaricio, mas é tão frio.

posso ver o sono perdido, 
passeando ao redor da paranóia,
me desesperando, enquanto penso,
enquanto sinto a posse
do que eu não tenho.

pesadelos não têm compaixão.
não me perturbe com a voz dela ao fundo.
me deixe sonhar que sou una.

21.3.11

subway

tenho vontade de fazer parte desses trilhos que me guiam todos os dias. meu reflexo se mistura às linhas sem que eu perceba. a luz, a minha cabeça... se desgruda, se solta em duas, três... eu me multiplico através do vidro. no intervalo de uma parede, fui decaptada. ela me olha. o trem anda e eu a perco de vista. deslizando e deslizando sobre o meu sangue, meu gosto de ferro. observa um homem sobre a faixa amarela. os trilhos atraem a sua cabeça. mais um decaptado. depressa os passageiros seguem pra algum destino - paraíso ou liberdade? preciso saber onde estou. não consigo desviar meus olhos pra nenhum caminho. a fraqueza rende meu corpo. onde estão meus olhos? eu não consigo me mexer. meus restos se dividiram entre as estações. meu coração quis ficar. até chegar à minha boca, agora, um labirinto de pregos quebrados. minha alma foi triturada em silêncio entre as ferragens. ninguém se pergunta o que está lá fora, quem está lá, no escuro subterrâneo. as almas que olharam para os trilhos caminham sem destino, sem cabeças, nos corredores de emergência. 
minhas mãos presas no corrimão. debruçada sobre a proteção férrea, como se ali tivesse congelado após um momento de vertigem.
- fim da linha -

6.3.11

minha festa colorida

a suavidade entrava e saia
um pouco de brisa
[sem mar, água]
um pouco de alegria para os meus pulmões

meu olhar driblava os arranha-céus pra não perder um segundo daquele espetáculo. não há pintura que supere as cores absurdas do anoitecer. layout dos deuses.

color-
indo o céu

vermelho
-indo
alaranjando

a poluição
azul-cel-este-oeste acin-zen-tado

o claro
-indo
escurecendo a vida
na cidade com tons lilás

do pátio do colégio, já podia ouvir... apressei o passo, meu coração-carnaval.

TUM... tum-TUM!
- começam os batuques
a festa mais colorida

desde 1917, as avenidas festejam o final de fevereiro com um cortejo de maracatu. cento e cinquenta alfaias vermelhas desfilam pelo centro da cidade. é a primeira vez sem Jorge, desde que nos conhecemos ali em 1971.
acompanho os tambores sozinha. a liberdade é uma das melhores coisas no 'dançar maracatu'. alguns batuques mais fortes me despertam.

giro
-ando
o vestido branco

solto as mãos
do corpo todo

pulando-explorando
o chão, a música
guiando

a marcha me leva à dança. as luzes e enfeites encantam o grande baile no vale do anhangabaú. gosto de sair me divertindo no meio das pessoas. uma menina sorri pra mim e começamos a misturar nossos confetes mirando em um holofote, no alto. ainda na chuva de pedacinhos de papel, ela some. todos dançam juntos, trocam serpentinas. sozinhos e juntos.
a música pára - duas mãos tampam meus olhos...

[as mãos da multidão! - a única coisa que a minha mente consegue sugerir.]

giro pra trás... meu cachecol vermelho se enrosca em nós dois.
ele me abraça, me cheira.

por algum motivo, a frança deixara seus cabelos mais encaracolados.

saudade, saudade
Jorge me beija.

doce carnaval.

2.3.11

frio clandestino

Já eram quase oito da noite quando ela chegou. Rua Maria Antonieta, 47. Só pode ser aqui - pensou. Quase congeladas, as mãos de Louise empurraram uma portinhola de madeira velha. O corredor era iluminado por uma luzinha amarela lá no canto onde deveria ser o seu fim. O fim que dava na entrada. Já haviam lhe falado que seria preciso colocar os números secretos - a mesma senha que utilizava nos documentos internos, guardada no único lugar em que o governo nunca encontraria, a sua memória.

y-g-t-3-r-d-1-7

...a trava abriu.

Ela ainda não conhecia o endereço clandestino mais recente do partido. Os capangas da Polícia Política sentiam o cheiro de cada tática. Nas ruas, de dia, era preciso se esconder entre a multidão. A sede mudava a cada mês. À noite, a regra era sair só quando houvesse alguma tarefa excepcional a cumprir. Arriscar a sorte já havia custado a vida de alguns companheiros.

- Vict...

Sua lembrança foi interrompida por Helena.

- Venha, a reunião já deve começar. Todos chegaram.

A pouca iluminação refletia o vermelho das paredes. No alto, se destacava a clareza da tipografia: LIGA DA INTELIGÊNCIA PROLETÁRIA INTERNACIONAL. Ela não reconhecia quase ninguém. Os codinomes confundiam Louise. Observava as conversas apenas, estava sempre sozinha. A ilegalidade não te permitia amigos.

A voz imponente de um dos membros da Célula Central abriu o encontro...

- Fizemos este chamado com caráter de extrema urgência para definirmos o rumo da Liga. Diante da execução de quase dez camaradas nas últimas semanas, queremos propor um recuo de nossa estratégia. Essas mortes mostraram o nosso despreparo e uma série de erros no último período. Precisamos diminuir nossas atividades. Ainda são muito poucos os operários dispostos à nossa luta. Não podemos arriscar uma aventura inconsequente!

Uma longa discussão...

Louise não entendia. A morte se passava apenas como um detalhe de uma longa caminhada, da qual ela sabia que nunca veria o fim. Já havia entregado sua vida a este caminho. Outra vida substituiu a sua, outro nome, outras pessoas, outras casas, lugares, outro país. Estava disposta a dar a vida pela revolução. Era pela fome dos outros, pelo sofrimento e pela humilhação que sentia.

- Não há mesmo sentido em viver como vivemos.
- O que disse, Louise? - os sessenta que estavam presentes se surpreenderam com o desabafo que saiu em voz alta, sem querer, daquela jovem que esteve sempre calada.
- Vou me abster dessa decisão. Talvez eu não compreenda os perigos e riscos deste momento.
- Louise, se todos nós formos executados pelos capangas, nada vai restar. O projeto da Liga estará morto. Precisamos ter o cuidado e a paciência. Talvez a revolução não aconteça como acreditamos. A Polícia Política de Luiz Otávio tem sido cada vez mais intolerante e onipresente. Os proletários do mundo todo nos esperam nos próximos anos, nos próximos levantes. Não podemos morrer agora.

Ela pensou que talvez quisesse se entregar às possibilidades da morte. Parecia mais fácil do que continuar lutando contra o que já se tornara há tempos insuportável.

- Sim, não podemos morrer.

As mãos geladas...

21.2.11

escrever!

escrever ou dormir?
há quase um ano essa pergunta tem a mesma resposta, mas hoje eu quis questionar o meu conservadorismo. aliás, fiquei revoltada por perceber e colocar na minha cara que o cansaço e a preguiça tem me vencido quase todos os dias.
lembro de quando eu dizia que "dormir é perda de tempo". um tempo que foi custando cada vez mais caro na minha rotina. um sono cada vez mais raro, ralo. a verdade é que pouquíssimos têm sido os sonos em que eu realmente descanso. e acho que as minhas noites pré-18 eram muito mais eficientes em apagar o dia que acabou. hoje parece que os problemas vão se embaralhando e acumulando de tal forma que... uma noite de sono não é suficiente e nem duas seriam, talvez nem três. não me recupero dos meus dias e noites. eles se juntam em mim se amontoando, desorganizados e perturbando a tranquilidade dos meus sonhos.
pior de tudo é que eu só completei 22 primaveras, outonos, verões, invernos. e já me sinto enlouquecida com a vida, sem suportá-la, sem tempo pra digeri-la decentemente, sem paciência....
mas estou certa de que isso não é efeito da vida adulta, mas sim uma pequena fase dela.
tenho saudade da minha insônia juvenil. de encher o saco de quem vai dormir cedo, de quem vive podre de tanto trabalhar. eu não sentia esse sono incontrolável. o trabalho e a responsabilidade, ainda que imaturas, já fazem estragos na minha disposição de viver como eu sempre vivi. me deu saudade de preferir ficar horas escrevendo sobre nada, só pra mim...
não precisa fazer sentido, não precisa ser pra alguém, nem ser lido.
é gostoso escrever só por escrever... estou enrolando aqui desde o início só para sentir o gostinho de juntar meia dúzia de palavras do jeito que elas vierem!

13.9.10

entre o sonho e a realidade

*Há diferentes tipos de divergência. Meu sonho pode transbordar o curso natural dos acontecimentos, ou desviar-se para um lado aonde o curso natural dos acontecimentos nunca poderá chegar. No primeiro caso, o sonho não causa mal algum; pode até sustentar e fortalecer a energia do trabahador [...].
Em sonhos dessa espécie, nada pode corromper ou paralisar a força de trabalho. Ao contrário. Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando se adiantar e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça em suas mãos, eu decididamente não conseguiria entender o que faz o homem a iniciar e levar a termo vastos e penosos empreendimentos na arte, na ciência e na vida prática [...]. A divergência entre o sonho e a realidade nada tem de ruim, desde que o sonhador acredite seriamente em seu sonho sem deixar de atentar para a vida, comparando a observação desta com seus castelos no ar e trabalhando escrupulosamente na realização daquilo que imagina. Quando existe algum contato entre os sonhos e a vida, tudo vai bem.

*trecho do artigo "O erro da ideia pouco amadurecida", de D. I. Pissarev.

15.8.10

dia dos pais

na semana passada, um dia no terminal, toda a lotação, o movimento, a pressa e a frieza que eu to acostumada a ver foram ignoradas por uma família que devia ter vindo de longe. um misturado de mão e braço e choro e sorriso. eram mais de cinco, talvez 10... como pode num abraço só caber tudo isso de gente? a saudade deles se espremeu ali dentro, transbordou nas lágrimas felizes de um rosto sofrido, já enrugado. acho que era o avô de todos. uns pitiquinhos, outros mais velhos, já barbados, mas sem frescura nenhuma de parar alguns minutos da vida pra viver aquele momentinho.

[pra você, talvez até seja meio besta esses detalhes, mas enfim... toda aquela cena de novela acabou ficando na minha cabeça o resto do dia.]

--

sequer me lembro da última vez que o vi. de alguma vez ter recebido ou demonstrado qualquer afeto. dizem que parente tem "laços afetivos" de qualquer jeito. pois eu nunca vi nenhum tipo de amor se construir do nada, sem carinho, sem conversa, sem respeito, sem alguma troca, sem presença.

agora, com a sua carcaça, não vai nenhum pedaço de tijolo que aquelas mãos machucadas construíram durante mais de cinquenta anos. nada do concreto que monopolizou - e endureceu - seu coração.
de abstrato, talvez um tanto de raiva e de maldade. talvez leve a mágoa que alimentou sua solidão esse tempo todo. queria saber o que pensou nos últimos instantes.

ainda sobrevivo sob o seu teto. mas nenhum canto dessa casa traz algum significado, alguma saudade. tudo que conquistou sequer carrega uma lembrança sua, nem foto. às vezes, só seu nome perdido numa conversa ou numa piada. a velhice não te perdoou. acho que ninguém te perdoou.

a notícia da sua morte não provocou em mim qualquer reação, dor, nada. tudo o que eu sinto é tão frio, que talvez esse texto esteja mentiroso, mostrando um sentimento que não existiu.

a minha lágrima só caiu pela certeza de não termos mais chances de ser o que podíamos.

hoje eu enterro meu amor moribundo, com todos os abraços que eu guardei pra te dar.

19.6.10

please...

I wouldn't mind if you took me in my sleep tonight
I wouldn't even put up a fight
I wouldn't care if you took it all away today
I'm sure I wouldn't even miss the pain

16.6.10

pacto

eram dois diamantes negros. tão belos e brilhantes quanto tristes... e misteriosos. só podia vê-los mirando fixamente por alguns segundos, parada e silenciosa. pois eram profundos, escondidos pelos traços - fortes - que o contornavam.
vidros blindados por lágrimas negras, endurecidas, secas, paralisadas.
me vi refletida.
aqueles espelhos puxavam minha imagem pra dentro de um mundo que me invertia, me distorcia. mas me tornava melhor do que me sentia.

descobri que poderia penetrar nos seus pensamentos quando você olhou nos meus olhos.

seu olhar me convidou a tocar sua mão.
- e eu jamais quis soltá-la.

de mãos dadas com você, ultrapassei os espelhos falsos. mal podia enxergar em meio às cores - todas muito escuras - que cobriam qualquer imagem vinda de lá de fora. te abracei mais forte pra me proteger dos monstros que encontrava em túneis intermináveis, flashes, vozes. e eu tive medo da escuridão, dos seus mistérios. eu me aproximei dos seus pesadelos. o ar estava embolorado, CANSADO, velho; cheirava a sonhos perdidos e tecido podre.

- mas eu jamais soltaria a sua mão.

então caminhei pelos canais de uma emoção quase morta. mas por onde meus pés tocavam, surgiam seres coloridos, água, frutos, tudo. num jardim secreto, a vida! uma felicidade sombreada de tristezas, que eu busquei por todas as linhas do seu pensamento. mas elas se escondiam entre corredores de um labirinto inextricável, em razões sem saídas.

me perdi, experimentei as gotas de tudo que explodia ali dentro, de tudo que você experimentava. entendi por que o seu gosto era tão bom! quando estive triste, minha lágrimas molharam sua alma. não encontrei - nem quis - qualquer porta que separasse meu corpo do seu. me rastejei pelas ramificações dos seus prazeres, onde os meus se encontravam. descansei no calor do seu coração. e cortei-o pra misturar meu sangue ao seu.




fizemos um pacto quando nos olhamos.

20.5.10

mosaico amoroso*

das suas palavras mórbidas e doloridas são forjadas estas minhas. tuas palavras quase me guiam. tudo em ti me atrai, me leva ao inesquecível. seus olhos me encantam assustadoramente. eu me assusto, mas estou certa de que já estive ali em outra ocasião. talvez por isso tenha sido tão incômodo. dessa vez, no entanto, fui apenas pra te buscar. quis levar a ti a minha esperança e minha luz. quero ser o eco da sua voz. conta pra mim o que esconde essa escuridão do seu olhar. o que há por trás dessa ausência do amor. o que há de errado com seu braço e com a sua cabeça. a paz do seu abraço escondia o abismo que eu poderia enxergar a passos de distância de nós. e eu até fechava os olhos pra não ver, apenas sentir o quão doce era seu gosto. meu sorriso iluminava tanto que nem você mais via qualquer espacinho vazio no nosso caminho. eu achei que com um Giz na mão poderia escrever uma nova história, acabar com A Tempestade dos meus dias, mas talvez tenha sido mesmo só mais um Tempo Perdido. espero que Os Anjos venham me salvar e que não me roubem Vinte e Nove amores pela minha vida. [porque eu não suportaria me sentir de novo como Daniel na Cova dos Leões]. apenas letras e melodias me guiam. histórias de quem eu nem conheço revelam histórias minhas. me perdi em promessas. chorei a paz perdida quando meu corpo deixou seus braços. emoção esgotada em discreta (in)felicidade de sorrisos não sinceros. mas é sobre a fé que eu caminho. e de repente tudo voltou ao normal. como se nada nunca tivesse mudado de lugar, como se nem uma lágrima sequer tivesse sido derramada.

*o que deveria ser o primeiro texto desse "projeto de blog" rs... uma colagem de retalhos de textos. recortei e colei trechos (em alguns casos, só uma frase solta) de alguns textos guardados num arquivo chamado 'umontedeletras'. um monte de letras juntas, por mais que possam parecer desconexas numa cabeça bem confusa, passam a fazer sentido quando colocadas numa mesma página. daí surge a ideia do blog.

13.5.10

duendes mortos

nós nos despedimos, mas ele vem comigo. a noite tá muito fria, ruim pra dormir sozinho. me senti aliviada. tenho demorado pra dormir por causa da cama gelada. então entramos no carro, quentinho e confortável.
- que saudade, amor. que bom que veio!
- também queria muito vir. hoje o dia foi ruim, pesado, cansativo. e durante o dia essa gripe me derrubou...
- é a minha falta... rs
- sim. mas vamos curar isso hoje!
[ele morde a língua e brilha os olhos pra mim. eu brilho meu sorriso e devolvo a malícia com o olhar]
ele liga o rádio. aquece uma mão na outra e apoia uma delas na minha perna. eu dirijo.
enquanto eu sinto seu carinho, cai uma gota na maçã do meu rosto. ele continua a conversa como se não tivesse visto. talvez não tenha percebido, na escuridão.
o locutor anuncia "a rádio dos melhores ouvintes". nós rimos - da rádio e de nós. ele canta e aumenta o volume...

take me on a trip upon your magic swirlin' ship,

my senses have been stripped, my hands can't feel to grip,
my toes too numb to step, wait only for my boot heels
to be wanderin'
i'm ready to go anywhere, i'm ready for to fade
into my own parade, cast your dancing spell my way,
i promise to go under it

as luzes dos faróis se deformam em raios verticais, coloridos, ofuscantes.
- e mais uma gota salga a minha boca.
ele aumenta o volume, abre a janela e canta mais alto...

i'm not sleepy and there is no place i'm going tooooo


eu soluço e as luzes se misturam ainda mais. as gotas surgem em cada nota da gaita até que o sr. tocador vai embora e nós nos calamos.
ele olha pro horizonte sobre os carros como se pensasse como eu.

- eu só quero ir pro cú do mundo, me jogar de uma ponte.

não ouço mais sua voz. nem sinto mais suas mãos me aquecendo.

à porta de casa, desligo o carro pra ele abrir o portão pra mim. ninguém desce.

11.5.10

sem assunto

(...)
até que, numa noite, a gente virou cada um pra um lado e dormiu sem sequer um beijo de boa noite. virei pro lado dele, pra estar ali - esperando -, caso ele quisesse esquecer o que tínhamos falado. tudo [tão desimportante] que havia passado. passado. sem sono e sem calor. demorei, mas dormi. com frio. com o frio da enorme distância que cabia em poucos centímetros. acordei tentando lembrar de como chegamos ali. em como a sua voz mansinha despertando um amor para acordar foi substituída por um puxão no dedo do pé. não lembrei...

9.5.10

bela felicidade

vi o rapaz primeiro, quando ainda estavam do lado de fora. os traços do rosto bem definidos. marcantes. um sorriso que irradiava até nos meus olhos.

[mais beleza há na sua felicidade que nos seus dentes e boca - perfeitos]

a porta abriu e ele, cavalheiro, deixou que uma moça passasse na sua frente.
um corpo delicado num vestido psicodelicamente colorido, sapatinhos meigos, tanto quanto seus gestos. ela também sorria.
agora eu podia observá-los inteiramente.
ele usava uma calça verde - quase no mesmo tom do verde que coloria a roupa dela.
era alto, o cabelo loiro escuro. a pele tinha um tom claro, mas dourado pelo sol. e o corpo parecia não ter nenhuma imperfeição.

[fantasiei por um milésimo de segundo]

eu não parava de olhar, acho que percebiam. mas pareciam nem se incomodar. já devem estar acostumados. não que fossem de uma beleza absurda e incontestável. não eram. reparei novamente e, definitivamente, não eram lindos - no que se convém socialmente a chamar de 'lindo'. mas havia sim alguma coisa muito bela naquele casal. algo mais atraente do que aquilo que se podia ver ou ter concretamente.

["belezas são coisas acesas por dentro"]

eles brincavam. umas brincadeiras meio bobas, umas caretas infantis. riam. só-riam.
eles me atraíam. tentei me lembrar de quando vi pela última vez uma paixão-beleza-felicidade tão pura. era tão doce!

chegou a minha estação, que era a deles também. perdi os dois de vista.
voltei a mim.

18.2.10

diluída

preciso diluir meus pensamentos
em letras de músicas - eu canto minha vida.
um set list eclético pra eu lembrar de cada pedaço do que fui e sou. colocar minha alma no mesmo lugar do corpo (acho que perdi aquele fiozinho que liga o espírito ao umbigo. saí de mim um dia e parece que, quando voltei, a pele, os ossos, as mãos... tudo estava pequeno demais. eu já não cabia mais em mim). grito pelos cantos do quarto a melodia caótica das alegrias e aflições que latejam tentando aumentar meu coração. mas ele não aguenta. às vezes parece que vai explodir.

preciso diluir meus sentimentos
em lágrimas e orgasmos - transbordo.
incontroláveis, a dor e o amor. inseparáveis, ele e eu.
num arrepio, lembro de ontem, anteontem, antes... quanto mais eu morro, mais forte é meu renascimento; ou quanto mais eu vivo, mais dolorosa é a minha morte.
minha paixão - meu ecstasy, preciso do seu prazer (in)finito todos os dias.

preciso diluir meus medos
em sonhos e criatividade - fujo.
confundo o rosto de uma com o cabelo de outra, as personalidades, o passado com o presente e o futuro. tudo se embaralha em cores quentes. noutro devaneio, em cores frias. mas cada detalhe faz sentido. meus pesadelos são quebra-cabeças mal montados. tudo entortado, mas todas as peças fazem parte do todo. da minha mente doente.

preciso me diluir
no que houver de mais repugnante em mim, na minha feiúra - minhas atitudes destroem.
anarquizei minha personalidade. fiz do ódio absurdo (por mim, pelo mundo) a anarquia mais inconsequente. voltei ao infantil. pra fugir do monstro que nasceu aqui. pra me diluir. me destruir.

7.1.10

três partes

parti-nos em três
fiz dois corações partidos
em milhares de partes
e você quase partiu.
.
.
.
1ª parte - O Pecado
"Vá se danar!
Você dá nada a ninguém
Nem um olhar
Nunca falou tudo bem
Tem, mas não dá
Sorrir jamais lhe convém
Você é má
Mas há de ter um bem
Você dá nada a ninguém
Vá se danar!
Danada, não perde o trem
Sabe nadar
Mas nada sabe de alguém que sabe amar
Eu quero ser seu bem
Você é má"
.
um gole. um olhar. um beijo
um surto
recebo.
encanto. aventura. desejo.
outro beijo.
um erro.
[continuo porque é sonho]
(te esqueço)

2ª parte - O Despertar
"Vá se danar!
Você dá nada a ninguém
Nunca dará
Nem mesmo um simples amém
A deus dirá
Diz que não vai à belém
Você é má
Mas pode ter um bem
Você dá nada a ninguém
Vá se danar!
Danada, finge tão bem
Sabe negar
Jamais dá a quem tem demais pra dar
Mas eu serei seu bem
Você é má"
.
meu despertar é te querer.
me desespero na dor
do meu prazer esvaziado
do pesar de te perder
enlouqueci.
3ª parte - A Morte
"Você é maluca
Você é malina
Você é malandra
Só não é massa...
E você magoa
E você massacra
E você machuca
Você mata!"
.
depois do pesadelo,
busco o certo e o errado
será mesmo a verdade?
questiono minha existência
-----------------------

existe mesmo pecado (?)

-----------------------

Última Parte - O Renascimento
.
morre e nasce 
amor zumbi
nossa pele não cicatriza 
regenera 
amor
morto
mata-dor.

31.12.09

um raio

                              tudo claro
                     ainda não era o dia
                             era apenas o raio



camarada, 
                 vista-se
                              ao novo!
as luzes 
              adormecidas
                                   renascem
e anunciam
                   o século
                                 vindouro
- ecoam
              batuques
                             militares. 
retoma 
            Nossa Marcha, 
                                     o vermelho 
das Lições 
                  de Outubro 
                                     para outros
maios
          outubros
                         raios 
para todos 
                  - marche! 
                                  para o nosso 
                                                        dia 
- o futuro.






22.12.09

venus in furs

das suas palavras, faça agulhas. enfie debaixo das minhas unhas e dos meus olhos. mas aumente o volume para não recair na sua doce compaixão ao ouvir meus gritos. me torture até enxergar lágrimas de sangue descendo pelo meu rosto. até acabar com a sensibilidade dos meus dedos. não quero que pare. se eu falar em amor, bata na minha cara como numa vadia. continue a soluçar socos no meu estômago. e a atirar seus olhares, bombas de desprezo que explodem no meu peito. um fogo que sobe pra minha garganta. um nojo que arde até a minha língua. eu não consigo mais olhar nos seus olhos. deixe suas lágrimas caírem em mim como ácido. até que minha pele esteja corroída pela sua dor e o seu ódio. me hipnotize com o seu canto para me levar ao inferno. eu quero dormir por mil anos. ateie fogo onde ainda houver vida em mim e fique em paz.



Taste the whip, in love not given lightly
Taste the whip, now plead for me
I am tired, I am weary
I could sleep for a thousand years
A thousand dreams that would awake me
Different colors made of tears
Shiny, shiny, shiny boots of leather
Whiplash girlchild in the dark
Severin, your servant comes in bells, please don't forsake him
Strike, dear mistress, and cure his heart

17.12.09

sonho horizonte

você abriria mão de conhecer a beleza do nascer do dia e a chegada da noite pra poder sentir a paz de não viver na imundície dos últimos tempos? trocaria este por um outro mundo, mesmo sem saber qual seria? deixaria de sentir o gosto de tudo para experimentar um novo sentido?

entre milhões de bombardeios racionais de uma têmpora a outra, me questiono se provar as delícias deste mundo compensa a sensação de suas agruras.

desde que me conheço, um vazio esquisito ocupa a alma. mesmo que tudo esteja bem, um incômodo sem sentido persiste. como sentir frio no calor. o frio parece impossível, mas é tão real quanto a lembrança dos meus pesadelos. penso em tudo e em nada. apenas desejo ser o não ser. sinto as garras dos meus demônios se arranhando aqui dentro, brigando entre si por cada gota de pus do meu corpo. desisto. entrego todas as forças que ainda guardo, mas logo sinto os restos infernais caindo pelo meu rosto e umedecendo minha boca.

os olhos embaçados. as mãos inquietas. os pés mórbidos. o desconforto da dor.
talvez a cura pro meu inferninho interno seja aquela que eu vejo no horizonte desde criancinha. eternamente intocável. o Mundo dos Meus Sonhos. fica depois do País das Maravilhas, distante da Terra do Nunca, perto do Nada.

queria abrigo num ventre... pra voltar a dormir o sono dos fetos.

sem conhecer ninguém. sem ter visto nada. sem ter que fazer nada. sem desejar o horizonte.

4.12.09

nas calçadas



Na verdade, é um trabalho como outro qualquer. Dentro do sistema,

tem uma grande hipocrisia

porque até as pessoas sabem que é ilegal.

Mas o que é ilegal?

Até as pessoas legalizadas compram. A gente sabe que tem muito lojista, muito comerciante que sonega imposto, que compra mercadoria e comercializa mercadoria pirata dentro do seu estabelecimento, que é "legalizado". Então o que acontece é que

a corda estoura do lado mais fraco,

que é o cara que está do lado direito da calçada. Mas se você olhar pro lado esquerdo da calçada, nas lojas, vai ter mercadoria com sonegação de imposto, pirataria também, porque a gente sabe que existe. Então é uma grande hipocrisia esse país.


Espero que o seu trabalho seja divulgado, porque

a gente vive um momento bem difícil mesmo.

A sociedade em geral, os políticos vêem a gente como uma parte que não gera renda. E isso é mentira. Uma banca desta sustenta de 10 a 15 famílias. Porque cada mercadoria tem um fornecedor e cada fornecedor tem uma família. E essa família sobrevive disso.
*

*Depoimento de um ambulante.

ps.: pra ver melhor: http://www.youtube.com/watch?v=V7JsUmbxk3U

26.11.09

vagar errante

porque hoje as suas palavras traduzem minha alma de uma forma que eu mesma não seria capaz...

Teoria não validada

Sob meu olhar pálido
A verdade escorre já falecida
E na levada desta sina
O linear torna-se árido

Dentre tantas frases encolhidas
Falta-me ar para dizer o contrário
Que não há dores escolhidas
Como uma derrota de bom grado

Todos os passos são revoltos
Envoltos em melodias já castigadas
O que me resta, senão a falha?

Enfim, o desconforto atrofia em mim
Flores de vidro não mastigadas
Na garganta, na sacada, não importa
O medo e o peso alimentam-se da náusea
De carregar o próprio tormento
Em pleno consentimento com
O vagar errante de minha alma!

Samuel Malentacchi