hoje faltou alegria
fiquei muda
me mordeu qualquer bicho
algum troço esquisito
me deu paralisia
a solidão não foi companhia
- até ela se foi
levou meu ar e meus pulmões
esqueceu um tanto de lágrimas
- esquizofrênicas
e as veias sem vi(d)as
virei a alma do avesso
e, ainda assim, não me vi
gravei a minha voz
pra depois ouvir
não reconheci
a escrita fez rima
- infantil
fingiu ser minha
e se tornou
nada vezes poesia
que dá em nada
atrás da porta
meros rabiscos meus
significados seus
no entardecer
o grafite é invisível
como a saudade
como o que sinto
como o que não existe
nesta tarde, sem apetite.
21.9.11
12.9.11
traçados
Desceu as escadas, me viu.
Sem perguntar, pedir,
entrou e bateu a porta.
[As mãos se apoiaram entre os azulejos.
O amor foi devorado.
Os olhos, no escuro, não diziam]
Ao chão!
Ao cheiro!
À surpresa!
Tocava-me, prendia
outra vez, o ar, o tempo,
parados, incontrolados,
meus lábios servidos de delírio.
O pulso e as pálpebras
caindo.
As vozes e os segundos
em ritmo,
em mãos.
Levou nossos sentidos
ao quadrado
ao lado.
[O perfume dos seus carinhos,
lençóis,
dias vazios.]
A-calma
pr'alguma dor,
alguma falta,
alguma ansiedade
que houvesse.
O prazer silenciava meus tormentos.
Retorcido em gemidos, segurava minha cintura
como se fosse perdê-la.
Eu queria apenas estar e ser esta noite,
desenhada no papel, no caderno de capa vermelha.
Meu retrato: menina,
de olhar perdido
nos lados do quarto.
[Escritos
preto com branco,
sobre um tipo comum
de letra,
do que se diz,
do que se quer.]
Os nossos hálitos não sabem de si.
- Escrevi num canto borrado.
O nanquim fez curvas.
No seu traço,
a literatura de mim, espírito despido
à janela do alto do prédio,
a cidade ressentida abrigando nosso infinito,
os edifícios.
De tanto ser
- fomos
escorremos
entre estrelas
e paredes
paralelos
cruzavam-se
intensos
encontros.
24.8.11
memória literária
24 de agosto de 1899, Buenos Aires: nascimento de Jorge Luis Borges.
---
1964
I
Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
Ni los lentos jardines.
Ya no hay una Luna que no sea espejo del pasado,
Cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las cienes
Que acercaba el amor. Hoy solo tienes
La fiel memoria y los desiertos días.
Nadie pierde (repites vanamente)
Sino lo que no tiene y no ha tenido
Nunca, pero no basta ser valiente
Para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.
II
Ya no seré feliz. Tal vez no importa.
Hay tantas otras cosas en el mundo;
Un instante cualquiera es más profundo
Y diverso que el mar. La vida es corta
Y aunque las horas son tan largas, una
Oscura maravilla nos acecha, la muerte,
ese otro mar, esa otra flecha
Que nos libra del sol y de la luna
Y del amor. La dicha que me diste
Y me quitaste debe ser borrada;
Lo que era todo tiene que ser nada.
Sólo me queda el goce de estar triste,
Esa vana costumbre que me inclina
Al sur, a cierta puerta, a cierta esquina
12.8.11
amor velado
falsa sexta-feira 13
na escuridão sinistra
da minha manhã
cinza brilhante
envolvido nas nuvens
ressaca sentimental
4h53 até o fim da madrugada
quantos estão morrendo agora?
raiva vampírica
desejei infinito aquele luar
vagar em silêncio
o perigo enjoar o estômago
o gosto de ferro gelar
o juízo corrompido
escrúpulos são muros
somos assassinos por natureza
eis a dor de um corpo em outro corpo
a transferência da morte
pra qualquer um
hoje é 12 de agosto
é inesquecível
pra qualquer um
desenterrar e enterrar
com o pesar destes dias
tristes, insossos
brindo o sangue de hoje
num adeus aprisionado
grito num choro de desespero
mato para viver
a solidão de não acreditar
no amor
em nada
em ninguém
1.8.11
para a minha menina
oh, honey, não se assuste de novo
é só a mesma escuridão passageira
você só precisa ficar calma
e sentir meu carinho por você
eu também só tenho você
e isso vai ser sempre o bastante
minhas mãos vão limpar
o que cair pelo seu rosto
enquanto você me escreve e me conta
sobre o que você fez hoje
sobre como você se sente
nós podemos sair e comer alguma coisa
vamos ao parque amanhã cedo
pra você lembrar que há vida
e ver que há outros e outras
não precisa se proteger de mim
eu compreendo cada impulso
que parte do seu coração
você precisa saber que eu vou estar aqui pro resto da vida
pra te proteger
da sua tristeza e da sua alegria
quando a sua cabeça desabar bêbada ou cansada
eu vou apoiá-la
o suficiente pra você não se machucar
essa dor vai passar
e vão vir outras
você é tão frágil
quando você vive
está chovendo no seu olho?
agora a sua doçura vai derreter
e depois a minha menina delicada vai embora
mas eu vou continuar aqui
agora você sabe
que somos só eu e você
28.7.11
sexta-feira. sexta-feira. sexta-feira...
quinta-feira pede sexta-feira
que pede cerveja
que pede conversa
que pede alguém
que pede mais cerveja
que pede mais conversa
que pede mais alguém
que pede mais cerveja
que pede mais risada
que pede mais sexta-feira
que pede madrugada
que pede alguém
pede o pé de alguém
que não pede mais nada.
18.7.11
novo blog
meus queridos e raros leitores,
criei um novo blog e quero convidá-los a acompanhá-lo: transposições
não vou abandonar este, até porque são propostas diferentes e necessito de ambas.
mas quem gosta daqui muito provavelmente vai gostar de lá tbm! =)
a ideia é mais ou menos essa:
Inauguro um espaço para as ideias que, até então, se diluíam na minha subjetividade. A moda online do ‘compartilhar’ me empolgou a abrir as anotações. Transpor uma percepção do cotidiano, de experiências, da sociedade, do jornalismo, das pessoas e das coisas. Interessa-me o que, em geral, está em oposição à contradição que vivemos. Não só teorias e concepções, mas ações – políticas, artísticas, sociais – que tem por fim uma organização daqueles que sustentam as nossas cidades, um avanço da consciência na cidade.
criei um novo blog e quero convidá-los a acompanhá-lo: transposições
não vou abandonar este, até porque são propostas diferentes e necessito de ambas.
mas quem gosta daqui muito provavelmente vai gostar de lá tbm! =)
a ideia é mais ou menos essa:
Inauguro um espaço para as ideias que, até então, se diluíam na minha subjetividade. A moda online do ‘compartilhar’ me empolgou a abrir as anotações. Transpor uma percepção do cotidiano, de experiências, da sociedade, do jornalismo, das pessoas e das coisas. Interessa-me o que, em geral, está em oposição à contradição que vivemos. Não só teorias e concepções, mas ações – políticas, artísticas, sociais – que tem por fim uma organização daqueles que sustentam as nossas cidades, um avanço da consciência na cidade.
15.7.11
olhos livres
livros, livros e mais livros.
leia-os.
livre-os.
livre-se,
liberdade,
livrai-nos dos velhos versos
e dos velhos.
resgatai o Livro, o Livre, as Letras.
dos livros livres, novos livres.
dos livros, livres novos livros,
versos livres
- ler, produzir, distribuir.
leia-os.
livre-os.
livre-se,
liberdade,
livrai-nos dos velhos versos
e dos velhos.
resgatai o Livro, o Livre, as Letras.
dos livros livres, novos livres.
dos livros, livres novos livros,
versos livres
- ler, produzir, distribuir.
19.6.11
la nouvelle jeunesse
![]() |
Deixar o que precisar ficar
para trás,
época morta,
para trás!
Adiante, apenas a cidade-universidade
dos espaços, ideias, atos,
a liberdade exata.
- sonhamos!
Queremos os livros proibidos, as drogas ilícitas,
as festas imorais, as reuniões.
De censura, bastam-nos os pais!
Não nos corrompemos às suas ilusões.
O que vemos é uma mentira.
O que vivemos é uma mentira!
Por dentro dessa arquitetura intocável,
apenas um vazio há tempos apodrecido
Seu mal gosto antiquado
cobrimos com cartazes!
Pichamos a ordem do dia.
E se falamos para uma cidade velha,
que já não enxerga nem nos ouve,
multiplicar as palavras
em uma voz Internacional.
- sonhamos!
Da Europa ou da América
UMA BANDEIRA
pr'essa multidão amordaçada
sem direção,
em Paris, Madrid, Atenas,
Santiago, São Paulo, nas ruas,
(h)a juventude.
10.6.11
chuva artificial
de repente as águas se misturaram.
apenas sentia a chuva aquecendo meus arrepios. a queda d'água enfraquecida, como as minhas vontades. irritantemente fracas. as gotas - elas não alcançam as horas do meu cansaço. mas eu forço, aumento a temperatura. e faço derreter minha tensão no vapor dessa catarse diária.
a eletricidade que bombeia minha purificação é o que silencia meu desespero. ali, ninguém me ouve. o rosto molhado ilude a sensibilidade. não dá pra ver, saber, se há água demais ou de menos nos meus olhos. mas enquanto as tiver em mim, o registro não gira. enquanto sentir frio. enquanto estiver confortável pra todo o meu corpo, sentado ou encostado ali. enquanto disso eu precisar.
a tristeza parece mais suave entre toda essa espuma. a culpa parece mais limpa.
desligo o chuveiro e despejo em mim as ervas em banho. instante sem fôlego, choque térmico, a finalização de um descarrego.
olho pro ralo procurando algum sinal da minha angústia.
apenas sentia a chuva aquecendo meus arrepios. a queda d'água enfraquecida, como as minhas vontades. irritantemente fracas. as gotas - elas não alcançam as horas do meu cansaço. mas eu forço, aumento a temperatura. e faço derreter minha tensão no vapor dessa catarse diária.
a eletricidade que bombeia minha purificação é o que silencia meu desespero. ali, ninguém me ouve. o rosto molhado ilude a sensibilidade. não dá pra ver, saber, se há água demais ou de menos nos meus olhos. mas enquanto as tiver em mim, o registro não gira. enquanto sentir frio. enquanto estiver confortável pra todo o meu corpo, sentado ou encostado ali. enquanto disso eu precisar.
a tristeza parece mais suave entre toda essa espuma. a culpa parece mais limpa.
desligo o chuveiro e despejo em mim as ervas em banho. instante sem fôlego, choque térmico, a finalização de um descarrego.
olho pro ralo procurando algum sinal da minha angústia.
26.4.11
coração apertado
hoje o tempo está bom para um abraço apertado, mas o meu não chega. a minha expectativa é a de uma criança com a esperança de receber um ovo de chocolate atrasado do coelhinho, em plena terça-feira pós domingo de páscoa. será que eu preciso procurar o sr. coelho? é isso que a minha mãe fazia quando eu era criança. aliás, caçar tesouros deve dar uma sensação muito gostosa, emocionante, aventureira!
mas nem lembro o que é isso. pareço longe de qualquer tesouro, se é que ele existe. - e não venha me dizer, minha segunda voz, que já existem tesouros ao meu lado. que papinho!
meu tesouro só se for o frio. frio que eu cavei dentro desse abismo onde ninguém entra, onde ninguém nunca quer entrar. ele é tão escuro assim? alguns já até experimentaram, caramba! apesar que muitos experimentaram e se foram. os que ficaram preferiram manter certa distância do fundo do abismo. acho que os compreendo. e eu, do fundo, mal os vejo, menos ainda consigo abraçá-los em dias como hoje.
queria ter superpoderes elásticos nos braços e no corpo todo pra poder passar de mim para você. chegar no seu peito e apoiar meu queixo no seu ombro direito. sou capaz de te compreender e decifrar seus segredos até, mas de longe. se eu mostrar minhas mãos, você pode se assustar com o tamanho das garras. se eu falar, você pode achar meu tom de voz tão agressivo que vai preferir levar uma bronca do chefe a conversar sobre qualquer assunto comigo. se eu te olhar nos olhos, sua impressão vai ser de que estou te encarando e procurando briga. se você decidir me dizer o que eu devo ou não fazer, então, vou te mandar pro inferno uma vez só e vai ser suficiente pra você não voltar nunca mais.
parece que os braços vão se atrofiando conforme você não os utiliza. é assim com a minha escrita. e pensar isso me lembra daquela sensação de quando você chorou muito, por uma tristeza tão forte, com lágrimas tão pesadas, e então alguém ou algo ou você mesma arranca uma risada sua, sincera. você até havia esquecido que podia sorrir e, de repente, sem perceber, escapou-lhe uma gargalhada desajeitada. eu não levo jeito pra rir... não tenho muito jeito com as pessoas também, nem comigo mesma. acho que não sei levar a vida.
não sei se foi sempre assim, mas sinto o agora como um momento de epifania.
o agora não é bom. parece que quanto mais se sabe, mais se descobre, mais se entristece, mais se deprime, mais se revolta, mais se nega!
a vida, sem percebê-la, deve ser mais leve e feliz.
mas nem lembro o que é isso. pareço longe de qualquer tesouro, se é que ele existe. - e não venha me dizer, minha segunda voz, que já existem tesouros ao meu lado. que papinho!
meu tesouro só se for o frio. frio que eu cavei dentro desse abismo onde ninguém entra, onde ninguém nunca quer entrar. ele é tão escuro assim? alguns já até experimentaram, caramba! apesar que muitos experimentaram e se foram. os que ficaram preferiram manter certa distância do fundo do abismo. acho que os compreendo. e eu, do fundo, mal os vejo, menos ainda consigo abraçá-los em dias como hoje.
queria ter superpoderes elásticos nos braços e no corpo todo pra poder passar de mim para você. chegar no seu peito e apoiar meu queixo no seu ombro direito. sou capaz de te compreender e decifrar seus segredos até, mas de longe. se eu mostrar minhas mãos, você pode se assustar com o tamanho das garras. se eu falar, você pode achar meu tom de voz tão agressivo que vai preferir levar uma bronca do chefe a conversar sobre qualquer assunto comigo. se eu te olhar nos olhos, sua impressão vai ser de que estou te encarando e procurando briga. se você decidir me dizer o que eu devo ou não fazer, então, vou te mandar pro inferno uma vez só e vai ser suficiente pra você não voltar nunca mais.
parece que os braços vão se atrofiando conforme você não os utiliza. é assim com a minha escrita. e pensar isso me lembra daquela sensação de quando você chorou muito, por uma tristeza tão forte, com lágrimas tão pesadas, e então alguém ou algo ou você mesma arranca uma risada sua, sincera. você até havia esquecido que podia sorrir e, de repente, sem perceber, escapou-lhe uma gargalhada desajeitada. eu não levo jeito pra rir... não tenho muito jeito com as pessoas também, nem comigo mesma. acho que não sei levar a vida.
não sei se foi sempre assim, mas sinto o agora como um momento de epifania.
o agora não é bom. parece que quanto mais se sabe, mais se descobre, mais se entristece, mais se deprime, mais se revolta, mais se nega!
a vida, sem percebê-la, deve ser mais leve e feliz.
24.3.11
todos os dias que você escolhe ignorar
os beijos, quando escapam,
cortam meus lábios
sei que não posso impedir-te de ir
mas o que haverá de melhor longe de nós dois?
a tua ausência resseca a minha alma,
inverte os cantos da minha cama.
me acaricio, mas é tão frio.
posso ver o sono perdido,
passeando ao redor da paranóia,
me desesperando, enquanto penso,
enquanto sinto a posse
do que eu não tenho.
pesadelos não têm compaixão.
não me perturbe com a voz dela ao fundo.
me deixe sonhar que sou una.
cortam meus lábios
sei que não posso impedir-te de ir
mas o que haverá de melhor longe de nós dois?
a tua ausência resseca a minha alma,
inverte os cantos da minha cama.
me acaricio, mas é tão frio.
posso ver o sono perdido,
passeando ao redor da paranóia,
me desesperando, enquanto penso,
enquanto sinto a posse
do que eu não tenho.
pesadelos não têm compaixão.
não me perturbe com a voz dela ao fundo.
me deixe sonhar que sou una.
21.3.11
subway
tenho vontade de fazer parte desses trilhos que me guiam todos os dias. meu reflexo se mistura às linhas sem que eu perceba. a luz, a minha cabeça... se desgruda, se solta em duas, três... eu me multiplico através do vidro. no intervalo de uma parede, fui decaptada. ela me olha. o trem anda e eu a perco de vista. deslizando e deslizando sobre o meu sangue, meu gosto de ferro. observa um homem sobre a faixa amarela. os trilhos atraem a sua cabeça. mais um decaptado. depressa os passageiros seguem pra algum destino - paraíso ou liberdade? preciso saber onde estou. não consigo desviar meus olhos pra nenhum caminho. a fraqueza rende meu corpo. onde estão meus olhos? eu não consigo me mexer. meus restos se dividiram entre as estações. meu coração quis ficar. até chegar à minha boca, agora, um labirinto de pregos quebrados. minha alma foi triturada em silêncio entre as ferragens. ninguém se pergunta o que está lá fora, quem está lá, no escuro subterrâneo. as almas que olharam para os trilhos caminham sem destino, sem cabeças, nos corredores de emergência.
minhas mãos presas no corrimão. debruçada sobre a proteção férrea, como se ali tivesse congelado após um momento de vertigem.
- fim da linha -
minhas mãos presas no corrimão. debruçada sobre a proteção férrea, como se ali tivesse congelado após um momento de vertigem.
- fim da linha -
6.3.11
minha festa colorida
a suavidade entrava e saia
um pouco de brisa
[sem mar, água]
um pouco de alegria para os meus pulmões
meu olhar driblava os arranha-céus pra não perder um segundo daquele espetáculo. não há pintura que supere as cores absurdas do anoitecer. layout dos deuses.
color-
indo o céu
vermelho
-indo
alaranjando
a poluição
azul-cel-este-oeste acin-zen-tado
o claro
-indo
escurecendo a vida
na cidade com tons lilás
do pátio do colégio, já podia ouvir... apressei o passo, meu coração-carnaval.
TUM... tum-TUM!
- começam os batuques
a festa mais colorida
desde 1917, as avenidas festejam o final de fevereiro com um cortejo de maracatu. cento e cinquenta alfaias vermelhas desfilam pelo centro da cidade. é a primeira vez sem Jorge, desde que nos conhecemos ali em 1971.
acompanho os tambores sozinha. a liberdade é uma das melhores coisas no 'dançar maracatu'. alguns batuques mais fortes me despertam.
giro
-ando
o vestido branco
solto as mãos
do corpo todo
pulando-explorando
o chão, a música
guiando
a marcha me leva à dança. as luzes e enfeites encantam o grande baile no vale do anhangabaú. gosto de sair me divertindo no meio das pessoas. uma menina sorri pra mim e começamos a misturar nossos confetes mirando em um holofote, no alto. ainda na chuva de pedacinhos de papel, ela some. todos dançam juntos, trocam serpentinas. sozinhos e juntos.
a música pára - duas mãos tampam meus olhos...
[as mãos da multidão! - a única coisa que a minha mente consegue sugerir.]
giro pra trás... meu cachecol vermelho se enrosca em nós dois.
ele me abraça, me cheira.
por algum motivo, a frança deixara seus cabelos mais encaracolados.
saudade, saudade
Jorge me beija.
doce carnaval.
um pouco de brisa
[sem mar, água]
um pouco de alegria para os meus pulmões
meu olhar driblava os arranha-céus pra não perder um segundo daquele espetáculo. não há pintura que supere as cores absurdas do anoitecer. layout dos deuses.
color-
indo o céu
vermelho
-indo
alaranjando
a poluição
azul-cel-este-oeste acin-zen-tado
o claro
-indo
escurecendo a vida
na cidade com tons lilás
do pátio do colégio, já podia ouvir... apressei o passo, meu coração-carnaval.
TUM... tum-TUM!
- começam os batuques
a festa mais colorida
desde 1917, as avenidas festejam o final de fevereiro com um cortejo de maracatu. cento e cinquenta alfaias vermelhas desfilam pelo centro da cidade. é a primeira vez sem Jorge, desde que nos conhecemos ali em 1971.
acompanho os tambores sozinha. a liberdade é uma das melhores coisas no 'dançar maracatu'. alguns batuques mais fortes me despertam.
giro
-ando
o vestido branco
solto as mãos
do corpo todo
pulando-explorando
o chão, a música
guiando
a marcha me leva à dança. as luzes e enfeites encantam o grande baile no vale do anhangabaú. gosto de sair me divertindo no meio das pessoas. uma menina sorri pra mim e começamos a misturar nossos confetes mirando em um holofote, no alto. ainda na chuva de pedacinhos de papel, ela some. todos dançam juntos, trocam serpentinas. sozinhos e juntos.
a música pára - duas mãos tampam meus olhos...
[as mãos da multidão! - a única coisa que a minha mente consegue sugerir.]
giro pra trás... meu cachecol vermelho se enrosca em nós dois.
ele me abraça, me cheira.
por algum motivo, a frança deixara seus cabelos mais encaracolados.
saudade, saudade
Jorge me beija.
doce carnaval.
2.3.11
frio clandestino
Já eram quase oito da noite quando ela chegou. Rua Maria Antonieta, 47. Só pode ser aqui - pensou. Quase congeladas, as mãos de Louise empurraram uma portinhola de madeira velha. O corredor era iluminado por uma luzinha amarela lá no canto onde deveria ser o seu fim. O fim que dava na entrada. Já haviam lhe falado que seria preciso colocar os números secretos - a mesma senha que utilizava nos documentos internos, guardada no único lugar em que o governo nunca encontraria, a sua memória.
y-g-t-3-r-d-1-7
...a trava abriu.
Ela ainda não conhecia o endereço clandestino mais recente do partido. Os capangas da Polícia Política sentiam o cheiro de cada tática. Nas ruas, de dia, era preciso se esconder entre a multidão. A sede mudava a cada mês. À noite, a regra era sair só quando houvesse alguma tarefa excepcional a cumprir. Arriscar a sorte já havia custado a vida de alguns companheiros.
- Vict...
Sua lembrança foi interrompida por Helena.
- Venha, a reunião já deve começar. Todos chegaram.
A pouca iluminação refletia o vermelho das paredes. No alto, se destacava a clareza da tipografia: LIGA DA INTELIGÊNCIA PROLETÁRIA INTERNACIONAL. Ela não reconhecia quase ninguém. Os codinomes confundiam Louise. Observava as conversas apenas, estava sempre sozinha. A ilegalidade não te permitia amigos.
A voz imponente de um dos membros da Célula Central abriu o encontro...
- Fizemos este chamado com caráter de extrema urgência para definirmos o rumo da Liga. Diante da execução de quase dez camaradas nas últimas semanas, queremos propor um recuo de nossa estratégia. Essas mortes mostraram o nosso despreparo e uma série de erros no último período. Precisamos diminuir nossas atividades. Ainda são muito poucos os operários dispostos à nossa luta. Não podemos arriscar uma aventura inconsequente!
Uma longa discussão...
Louise não entendia. A morte se passava apenas como um detalhe de uma longa caminhada, da qual ela sabia que nunca veria o fim. Já havia entregado sua vida a este caminho. Outra vida substituiu a sua, outro nome, outras pessoas, outras casas, lugares, outro país. Estava disposta a dar a vida pela revolução. Era pela fome dos outros, pelo sofrimento e pela humilhação que sentia.
- Não há mesmo sentido em viver como vivemos.
- O que disse, Louise? - os sessenta que estavam presentes se surpreenderam com o desabafo que saiu em voz alta, sem querer, daquela jovem que esteve sempre calada.
- Vou me abster dessa decisão. Talvez eu não compreenda os perigos e riscos deste momento.
- Louise, se todos nós formos executados pelos capangas, nada vai restar. O projeto da Liga estará morto. Precisamos ter o cuidado e a paciência. Talvez a revolução não aconteça como acreditamos. A Polícia Política de Luiz Otávio tem sido cada vez mais intolerante e onipresente. Os proletários do mundo todo nos esperam nos próximos anos, nos próximos levantes. Não podemos morrer agora.
Ela pensou que talvez quisesse se entregar às possibilidades da morte. Parecia mais fácil do que continuar lutando contra o que já se tornara há tempos insuportável.
- Sim, não podemos morrer.
As mãos geladas...
y-g-t-3-r-d-1-7
...a trava abriu.
Ela ainda não conhecia o endereço clandestino mais recente do partido. Os capangas da Polícia Política sentiam o cheiro de cada tática. Nas ruas, de dia, era preciso se esconder entre a multidão. A sede mudava a cada mês. À noite, a regra era sair só quando houvesse alguma tarefa excepcional a cumprir. Arriscar a sorte já havia custado a vida de alguns companheiros.
- Vict...
Sua lembrança foi interrompida por Helena.
- Venha, a reunião já deve começar. Todos chegaram.
A pouca iluminação refletia o vermelho das paredes. No alto, se destacava a clareza da tipografia: LIGA DA INTELIGÊNCIA PROLETÁRIA INTERNACIONAL. Ela não reconhecia quase ninguém. Os codinomes confundiam Louise. Observava as conversas apenas, estava sempre sozinha. A ilegalidade não te permitia amigos.
A voz imponente de um dos membros da Célula Central abriu o encontro...
- Fizemos este chamado com caráter de extrema urgência para definirmos o rumo da Liga. Diante da execução de quase dez camaradas nas últimas semanas, queremos propor um recuo de nossa estratégia. Essas mortes mostraram o nosso despreparo e uma série de erros no último período. Precisamos diminuir nossas atividades. Ainda são muito poucos os operários dispostos à nossa luta. Não podemos arriscar uma aventura inconsequente!
Uma longa discussão...
Louise não entendia. A morte se passava apenas como um detalhe de uma longa caminhada, da qual ela sabia que nunca veria o fim. Já havia entregado sua vida a este caminho. Outra vida substituiu a sua, outro nome, outras pessoas, outras casas, lugares, outro país. Estava disposta a dar a vida pela revolução. Era pela fome dos outros, pelo sofrimento e pela humilhação que sentia.
- Não há mesmo sentido em viver como vivemos.
- O que disse, Louise? - os sessenta que estavam presentes se surpreenderam com o desabafo que saiu em voz alta, sem querer, daquela jovem que esteve sempre calada.
- Vou me abster dessa decisão. Talvez eu não compreenda os perigos e riscos deste momento.
- Louise, se todos nós formos executados pelos capangas, nada vai restar. O projeto da Liga estará morto. Precisamos ter o cuidado e a paciência. Talvez a revolução não aconteça como acreditamos. A Polícia Política de Luiz Otávio tem sido cada vez mais intolerante e onipresente. Os proletários do mundo todo nos esperam nos próximos anos, nos próximos levantes. Não podemos morrer agora.
Ela pensou que talvez quisesse se entregar às possibilidades da morte. Parecia mais fácil do que continuar lutando contra o que já se tornara há tempos insuportável.
- Sim, não podemos morrer.
As mãos geladas...
21.2.11
escrever!
escrever ou dormir?
há quase um ano essa pergunta tem a mesma resposta, mas hoje eu quis questionar o meu conservadorismo. aliás, fiquei revoltada por perceber e colocar na minha cara que o cansaço e a preguiça tem me vencido quase todos os dias.
lembro de quando eu dizia que "dormir é perda de tempo". um tempo que foi custando cada vez mais caro na minha rotina. um sono cada vez mais raro, ralo. a verdade é que pouquíssimos têm sido os sonos em que eu realmente descanso. e acho que as minhas noites pré-18 eram muito mais eficientes em apagar o dia que acabou. hoje parece que os problemas vão se embaralhando e acumulando de tal forma que... uma noite de sono não é suficiente e nem duas seriam, talvez nem três. não me recupero dos meus dias e noites. eles se juntam em mim se amontoando, desorganizados e perturbando a tranquilidade dos meus sonhos.
pior de tudo é que eu só completei 22 primaveras, outonos, verões, invernos. e já me sinto enlouquecida com a vida, sem suportá-la, sem tempo pra digeri-la decentemente, sem paciência....
mas estou certa de que isso não é efeito da vida adulta, mas sim uma pequena fase dela.
tenho saudade da minha insônia juvenil. de encher o saco de quem vai dormir cedo, de quem vive podre de tanto trabalhar. eu não sentia esse sono incontrolável. o trabalho e a responsabilidade, ainda que imaturas, já fazem estragos na minha disposição de viver como eu sempre vivi. me deu saudade de preferir ficar horas escrevendo sobre nada, só pra mim...
não precisa fazer sentido, não precisa ser pra alguém, nem ser lido.
é gostoso escrever só por escrever... estou enrolando aqui desde o início só para sentir o gostinho de juntar meia dúzia de palavras do jeito que elas vierem!
há quase um ano essa pergunta tem a mesma resposta, mas hoje eu quis questionar o meu conservadorismo. aliás, fiquei revoltada por perceber e colocar na minha cara que o cansaço e a preguiça tem me vencido quase todos os dias.
lembro de quando eu dizia que "dormir é perda de tempo". um tempo que foi custando cada vez mais caro na minha rotina. um sono cada vez mais raro, ralo. a verdade é que pouquíssimos têm sido os sonos em que eu realmente descanso. e acho que as minhas noites pré-18 eram muito mais eficientes em apagar o dia que acabou. hoje parece que os problemas vão se embaralhando e acumulando de tal forma que... uma noite de sono não é suficiente e nem duas seriam, talvez nem três. não me recupero dos meus dias e noites. eles se juntam em mim se amontoando, desorganizados e perturbando a tranquilidade dos meus sonhos.
pior de tudo é que eu só completei 22 primaveras, outonos, verões, invernos. e já me sinto enlouquecida com a vida, sem suportá-la, sem tempo pra digeri-la decentemente, sem paciência....
mas estou certa de que isso não é efeito da vida adulta, mas sim uma pequena fase dela.
tenho saudade da minha insônia juvenil. de encher o saco de quem vai dormir cedo, de quem vive podre de tanto trabalhar. eu não sentia esse sono incontrolável. o trabalho e a responsabilidade, ainda que imaturas, já fazem estragos na minha disposição de viver como eu sempre vivi. me deu saudade de preferir ficar horas escrevendo sobre nada, só pra mim...
não precisa fazer sentido, não precisa ser pra alguém, nem ser lido.
é gostoso escrever só por escrever... estou enrolando aqui desde o início só para sentir o gostinho de juntar meia dúzia de palavras do jeito que elas vierem!
13.9.10
entre o sonho e a realidade
*Há diferentes tipos de divergência. Meu sonho pode transbordar o curso natural dos acontecimentos, ou desviar-se para um lado aonde o curso natural dos acontecimentos nunca poderá chegar. No primeiro caso, o sonho não causa mal algum; pode até sustentar e fortalecer a energia do trabahador [...].
Em sonhos dessa espécie, nada pode corromper ou paralisar a força de trabalho. Ao contrário. Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando se adiantar e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça em suas mãos, eu decididamente não conseguiria entender o que faz o homem a iniciar e levar a termo vastos e penosos empreendimentos na arte, na ciência e na vida prática [...]. A divergência entre o sonho e a realidade nada tem de ruim, desde que o sonhador acredite seriamente em seu sonho sem deixar de atentar para a vida, comparando a observação desta com seus castelos no ar e trabalhando escrupulosamente na realização daquilo que imagina. Quando existe algum contato entre os sonhos e a vida, tudo vai bem.
*trecho do artigo "O erro da ideia pouco amadurecida", de D. I. Pissarev.
Em sonhos dessa espécie, nada pode corromper ou paralisar a força de trabalho. Ao contrário. Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se não pudesse de vez em quando se adiantar e contemplar em imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça em suas mãos, eu decididamente não conseguiria entender o que faz o homem a iniciar e levar a termo vastos e penosos empreendimentos na arte, na ciência e na vida prática [...]. A divergência entre o sonho e a realidade nada tem de ruim, desde que o sonhador acredite seriamente em seu sonho sem deixar de atentar para a vida, comparando a observação desta com seus castelos no ar e trabalhando escrupulosamente na realização daquilo que imagina. Quando existe algum contato entre os sonhos e a vida, tudo vai bem.
*trecho do artigo "O erro da ideia pouco amadurecida", de D. I. Pissarev.
15.8.10
dia dos pais
na semana passada, um dia no terminal, toda a lotação, o movimento, a pressa e a frieza que eu to acostumada a ver foram ignoradas por uma família que devia ter vindo de longe. um misturado de mão e braço e choro e sorriso. eram mais de cinco, talvez 10... como pode num abraço só caber tudo isso de gente? a saudade deles se espremeu ali dentro, transbordou nas lágrimas felizes de um rosto sofrido, já enrugado. acho que era o avô de todos. uns pitiquinhos, outros mais velhos, já barbados, mas sem frescura nenhuma de parar alguns minutos da vida pra viver aquele momentinho.
[pra você, talvez até seja meio besta esses detalhes, mas enfim... toda aquela cena de novela acabou ficando na minha cabeça o resto do dia.]
--
sequer me lembro da última vez que o vi. de alguma vez ter recebido ou demonstrado qualquer afeto. dizem que parente tem "laços afetivos" de qualquer jeito. pois eu nunca vi nenhum tipo de amor se construir do nada, sem carinho, sem conversa, sem respeito, sem alguma troca, sem presença.
agora, com a sua carcaça, não vai nenhum pedaço de tijolo que aquelas mãos machucadas construíram durante mais de cinquenta anos. nada do concreto que monopolizou - e endureceu - seu coração.
de abstrato, talvez um tanto de raiva e de maldade. talvez leve a mágoa que alimentou sua solidão esse tempo todo. queria saber o que pensou nos últimos instantes.
ainda sobrevivo sob o seu teto. mas nenhum canto dessa casa traz algum significado, alguma saudade. tudo que conquistou sequer carrega uma lembrança sua, nem foto. às vezes, só seu nome perdido numa conversa ou numa piada. a velhice não te perdoou. acho que ninguém te perdoou.
a notícia da sua morte não provocou em mim qualquer reação, dor, nada. tudo o que eu sinto é tão frio, que talvez esse texto esteja mentiroso, mostrando um sentimento que não existiu.
a minha lágrima só caiu pela certeza de não termos mais chances de ser o que podíamos.
hoje eu enterro meu amor moribundo, com todos os abraços que eu guardei pra te dar.
[pra você, talvez até seja meio besta esses detalhes, mas enfim... toda aquela cena de novela acabou ficando na minha cabeça o resto do dia.]
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sequer me lembro da última vez que o vi. de alguma vez ter recebido ou demonstrado qualquer afeto. dizem que parente tem "laços afetivos" de qualquer jeito. pois eu nunca vi nenhum tipo de amor se construir do nada, sem carinho, sem conversa, sem respeito, sem alguma troca, sem presença.
agora, com a sua carcaça, não vai nenhum pedaço de tijolo que aquelas mãos machucadas construíram durante mais de cinquenta anos. nada do concreto que monopolizou - e endureceu - seu coração.
de abstrato, talvez um tanto de raiva e de maldade. talvez leve a mágoa que alimentou sua solidão esse tempo todo. queria saber o que pensou nos últimos instantes.
ainda sobrevivo sob o seu teto. mas nenhum canto dessa casa traz algum significado, alguma saudade. tudo que conquistou sequer carrega uma lembrança sua, nem foto. às vezes, só seu nome perdido numa conversa ou numa piada. a velhice não te perdoou. acho que ninguém te perdoou.
a notícia da sua morte não provocou em mim qualquer reação, dor, nada. tudo o que eu sinto é tão frio, que talvez esse texto esteja mentiroso, mostrando um sentimento que não existiu.
a minha lágrima só caiu pela certeza de não termos mais chances de ser o que podíamos.
hoje eu enterro meu amor moribundo, com todos os abraços que eu guardei pra te dar.
19.6.10
please...
I wouldn't mind if you took me in my sleep tonight
I wouldn't even put up a fight
I wouldn't care if you took it all away today
I'm sure I wouldn't even miss the pain
16.6.10
pacto
eram dois diamantes negros. tão belos e brilhantes quanto tristes... e misteriosos. só podia vê-los mirando fixamente por alguns segundos, parada e silenciosa. pois eram profundos, escondidos pelos traços - fortes - que o contornavam.
vidros blindados por lágrimas negras, endurecidas, secas, paralisadas.
me vi refletida.
aqueles espelhos puxavam minha imagem pra dentro de um mundo que me invertia, me distorcia. mas me tornava melhor do que me sentia.
descobri que poderia penetrar nos seus pensamentos quando você olhou nos meus olhos.
seu olhar me convidou a tocar sua mão.
- e eu jamais quis soltá-la.
de mãos dadas com você, ultrapassei os espelhos falsos. mal podia enxergar em meio às cores - todas muito escuras - que cobriam qualquer imagem vinda de lá de fora. te abracei mais forte pra me proteger dos monstros que encontrava em túneis intermináveis, flashes, vozes. e eu tive medo da escuridão, dos seus mistérios. eu me aproximei dos seus pesadelos. o ar estava embolorado, CANSADO, velho; cheirava a sonhos perdidos e tecido podre.
- mas eu jamais soltaria a sua mão.
então caminhei pelos canais de uma emoção quase morta. mas por onde meus pés tocavam, surgiam seres coloridos, água, frutos, tudo. num jardim secreto, a vida! uma felicidade sombreada de tristezas, que eu busquei por todas as linhas do seu pensamento. mas elas se escondiam entre corredores de um labirinto inextricável, em razões sem saídas.
me perdi, experimentei as gotas de tudo que explodia ali dentro, de tudo que você experimentava. entendi por que o seu gosto era tão bom! quando estive triste, minha lágrimas molharam sua alma. não encontrei - nem quis - qualquer porta que separasse meu corpo do seu. me rastejei pelas ramificações dos seus prazeres, onde os meus se encontravam. descansei no calor do seu coração. e cortei-o pra misturar meu sangue ao seu.

fizemos um pacto quando nos olhamos.
vidros blindados por lágrimas negras, endurecidas, secas, paralisadas.
me vi refletida.
aqueles espelhos puxavam minha imagem pra dentro de um mundo que me invertia, me distorcia. mas me tornava melhor do que me sentia.
descobri que poderia penetrar nos seus pensamentos quando você olhou nos meus olhos.
seu olhar me convidou a tocar sua mão.
- e eu jamais quis soltá-la.
de mãos dadas com você, ultrapassei os espelhos falsos. mal podia enxergar em meio às cores - todas muito escuras - que cobriam qualquer imagem vinda de lá de fora. te abracei mais forte pra me proteger dos monstros que encontrava em túneis intermináveis, flashes, vozes. e eu tive medo da escuridão, dos seus mistérios. eu me aproximei dos seus pesadelos. o ar estava embolorado, CANSADO, velho; cheirava a sonhos perdidos e tecido podre.
- mas eu jamais soltaria a sua mão.
então caminhei pelos canais de uma emoção quase morta. mas por onde meus pés tocavam, surgiam seres coloridos, água, frutos, tudo. num jardim secreto, a vida! uma felicidade sombreada de tristezas, que eu busquei por todas as linhas do seu pensamento. mas elas se escondiam entre corredores de um labirinto inextricável, em razões sem saídas.
me perdi, experimentei as gotas de tudo que explodia ali dentro, de tudo que você experimentava. entendi por que o seu gosto era tão bom! quando estive triste, minha lágrimas molharam sua alma. não encontrei - nem quis - qualquer porta que separasse meu corpo do seu. me rastejei pelas ramificações dos seus prazeres, onde os meus se encontravam. descansei no calor do seu coração. e cortei-o pra misturar meu sangue ao seu.
fizemos um pacto quando nos olhamos.
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